Como cortar e coser no viés

 

Técnica de corte · Guia prático

Como cortar e coser no viés sem costuras torcidas nem uma bainha irregular

As peças cortadas no viés têm uma suavidade que o tecido cortado no fio direito dificilmente consegue imitar: uma saia que acompanha o corpo, um top que se molda suavemente às formas, um decote que cai num drapeado fluido. Esse efeito começa ao rodar o tecido plano 45 graus — e com um molde e um método de confeção pensados para o que acontece a seguir.

O tecido cortado no viés pode esticar, ceder e deslocar-se enquanto é manuseado. Também pode torcer quando as duas direções do viés não estão equilibradas. O objetivo não é impedir completamente esse movimento, mas controlá-lo onde a peça precisa de estabilidade e permiti-lo onde o modelo precisa de fluidez.

▼ O princípio

O que é realmente o viés

Num tecido plano, os fios da urdidura correm no sentido do comprimento, paralelos à ourela, e os fios da trama atravessam-nos no sentido da largura. Estas duas direções são relativamente estáveis, embora a trama costume ter um pouco mais de cedência do que a urdidura. Ao puxar na diagonal, o entrelaçamento pode deformar-se: os ângulos entre os fios mudam e o tecido torna-se mais comprido e mais estreito.

O viés verdadeiro encontra-se a 45 graus em relação à urdidura e à trama. Normalmente é a direção com maior cedência mecânica, mas não é a única diagonal que se move. Outros ângulos fora do fio também apresentam alguma cedência, e a resposta exata depende da fibra, da construção do tecido, do acabamento e do equilíbrio entre urdidura e trama.

Diagrama que mostra a urdidura e a trama como direções relativamente estáveis e o viés verdadeiro a 45 graus como a direção de maior cedência

FIGURA 1 — PORQUE É QUE O VIÉS VERDADEIRO CEDE
A maior parte do movimento resulta da alteração do ângulo do entrelaçamento. Os próprios fios também podem endireitar, comprimir ou esticar ligeiramente.

Daqui resultam duas consequências úteis:

  • A precisão é importante. Uma peça concebida para ser cortada no viés verdadeiro deve ser colocada no ângulo indicado pelo molde. Pequenas diferenças podem fazer com que os painéis caiam ou reflitam a luz de forma diferente, especialmente em cetim.
  • O viés cede mecanicamente, não é elástico. Alguns tecidos recuperam bem; outros conservam parte da deformação. Faça um teste numa amostra antes de decidir o ajuste, o ponto ou o acabamento da bainha.

Porque vale a pena

  • Molda-se suavemente às curvas. Um molde bem desenvolvido para o viés pode conseguir forma com menos pinças ou costuras.
  • Move-se com fluidez. O tecido acompanha o corpo em vez de manter um contorno rígido.
  • Alguns modelos podem vestir-se pela cabeça. A necessidade de fecho continua a depender do molde, do tecido e do ajuste pretendido.
  • As tiras em viés acompanham curvas. É por isso que uma fita em viés consegue contornar decotes e cavas sem formar pregas rígidas.

▼ Passo 1

Prepare e esquadre o tecido

Faça o pré-tratamento do tecido da mesma forma como a peça acabada será lavada ou limpa e, depois, deixe-o repousar completamente plano. Antes de cortar:

  1. Encontre a trama. Puxe um único fio da trama e corte pelo espaço que fica. Rasgar pode funcionar em tecidos planos robustos, mas teste primeiro: pode deformar ou marcar tecidos delicados.
  2. Verifique o fio. Alinhe as ourelas sem as forçar. A extremidade esquadrada no sentido da trama deve formar um ângulo reto com as ourelas.
  3. Corrija suavemente, se necessário. Alguns tecidos laváveis podem voltar ao esquadro com uma tensão diagonal suave e vapor. Trabalhe aos poucos e deixe o tecido arrefecer completamente plano.
Convém saberSe o tecido voltar repetidamente a um enviesamento muito pronunciado, ou se endireitá-lo danificar a superfície, escolha outro tecido. Algumas distorções de fabrico podem ser melhoradas; uma deformação permanente não pode ser corrigida de forma fiável apenas com o ferro.

▼ Passo 2

Encontre o viés verdadeiro

Estenda o tecido completamente plano com uma das ourelas direita. Leve a extremidade esquadrada da trama até à ourela. O vinco diagonal resultante corresponde ao viés verdadeiro. Marque-o ligeiramente com giz ou use-o como linha de referência.

Três passos para encontrar o viés verdadeiro: esquadrar a extremidade transversal, dobrá-la até à ourela e alinhar a linha de viés do molde com o vinco

FIGURA 2 — ENCONTRAR O VIÉS VERDADEIRO
Utilize a linha de viés indicada no molde. Rodar simplesmente um molde concebido para o fio direito não é, por si só, uma conversão segura.

Antes de prender o molde com alfinetes ou pesos, meça a distância entre as duas extremidades da linha de viés do molde e a linha de referência. As duas medidas devem ser iguais.


▼ Passo 3

Planeie o plano de corte

Os planos de corte no viés normalmente exigem mais tecido, porque as peças ficam colocadas na diagonal e não se encaixam de forma tão compacta. Não existe uma percentagem adicional universal em que se possa confiar: a quantidade extra varia consoante a largura do tecido, o tamanho da peça, a forma dos moldes, o sentido do pelo e a repetição do estampado. Utilize a metragem indicada pelo molde para corte no viés e, sempre que possível, teste todo o plano de corte antes de comprar o tecido.

Comparação ilustrativa entre um plano de corte compacto no fio direito e um plano de corte no viés que utiliza mais comprimento de tecido

FIGURA 3 — UM EXEMPLO DE PLANO DE CORTE
Os cantos sombreados não podem ser usados para estes painéis grandes, mas podem servir para tiras de viés, vistas, bolsos ou retalhos úteis para testes.

Cortar numa só camada é o método mais seguro

Cortar uma camada de cada vez oferece o melhor controlo e evita que a camada inferior se desloque. Utilize peças de molde completas e vire-as quando for necessária uma imagem em espelho. Por vezes, um tecido estável pode ser cortado em duas camadas quando o molde fornece especificamente esse plano de corte, mas cortar numa só camada continua a ser a opção mais fiável.

O sentido do pelo e o equilíbrio do viés são coisas diferentes

Mantenha um estampado unidirecional, o pelo ou a superfície de um cetim sempre orientados no mesmo sentido, de cima para baixo. Separadamente, equilibre as duas direções do viés verdadeiro. As peças da frente e das costas — ou painéis sucessivos à volta do corpo — são frequentemente colocadas em vieses opostos para reduzir a torção. A disposição exata depende do modelo, por isso siga o plano de corte fornecido.

Diagrama que distingue um sentido de pelo consistente de direções de viés opostas nos painéis da frente e das costas

FIGURA 4 — EQUILIBRAR A PEÇA
Direções de viés paralelas à volta do corpo podem fazer com que a peça rode. Direções opostas distribuem a tensão de forma mais uniforme.

Durante o corteApoie todo o tecido sobre a mesa. Utilize uma boa tesoura afiada ou um cortador rotativo e coloque papel de seda por baixo de tecidos escorregadios. Marque os piques, os pontos de correspondência, as linhas de costura e o topo de cada peça antes de retirar o molde.

▼ Passo 4

Cosa sem deformar as costuras

A costura no viés depende muito do tecido. Faça primeiro uma amostra de costura, deixe-a pendurada e passe-a antes de escolher o ponto e as definições da máquina.

  • Manuseie com leveza. Apoie a peça e deixe a máquina transportar o tecido. Não puxe involuntariamente pela frente nem por trás.
  • Teste o ponto. Um ziguezague estreito pode dar a uma costura vertical no viés espaço para acompanhar o movimento; um ponto reto pode resultar melhor num tecido mais estável. Evite pontos demasiado curtos, que podem enrugar ou perfurar um tecido delicado.
  • Controle as camadas. Alfinetes finos, alinhavos à mão ou um calcador de duplo arrasto podem ajudar. Teste o calcador, porque não é ideal para todos os tecidos finos.
  • Estabilize apenas onde é necessário. Faça uma costura de estabilização nos decotes e cavas assim que possível. Utilize fita de estabilização cortada no fio direito, ourela, organza de seda ou uma fita termocolante reforçada adequada nos pontos em que é necessário controlar a cedência. Uma fita de viés comum é flexível e não funciona automaticamente como estabilizador.
  • Pressione; não arraste o ferro. Levante e pouse o ferro em vez de o deslizar sobre o tecido. Utilize a temperatura e o vapor adequados à fibra.
  • Guarde o trabalho plano. Apoie as zonas ainda por terminar entre sessões de costura para que não cedam antes de a montagem estar concluída.

▼ Passo 5 — o mais importante

Deixe a peça assentar antes de fazer a bainha

A gravidade pode fazer com que uma peça cortada no viés fique mais comprida e mais estreita, e diferentes zonas podem descair em quantidades diferentes. Termine a construção principal, mas deixe a bainha por acabar. Pendure a peça pelos pontos onde ficará normalmente apoiada durante pelo menos 24 horas, muitas vezes 48, e durante mais tempo se a linha da bainha ainda continuar a mudar.

Saia cortada no viés antes de assentar e depois de ficar pendurada durante 24 a 48 horas, com a extremidade inferior irregular marcada para nivelar e aparar

FIGURA 5 — A QUEDA DA BAINHA
A quantidade de alteração varia. O objetivo não é esperar um número fixo de horas, mas deixar o tecido assentar antes de definir a linha final da bainha.

Depois, nivele a bainha:

  1. Vista a peça na pessoa ou coloque-a no manequim exatamente da forma como será apoiada quando for usada.
  2. Meça a partir do chão em intervalos regulares e marque uma altura constante. Inclua os sapatos previstos quando estes influenciarem o resultado final de uma peça até ao chão ou ao tornozelo.
  3. Una as marcas com uma linha suave, apare o excesso e só depois faça a bainha.

Escolha uma bainha compatível com o tecido

Uma bainha estreita enrolada ou uma bainha bebé é muitas vezes o acabamento menos intrusivo para uma saia ou vestido fluido. Uma bainha mais larga pode marcar pelo direito ou acrescentar peso suficiente para alterar o cair da peça. Seja qual for o acabamento escolhido, faça outra amostra e evite esticar a extremidade enquanto passa pela máquina.


▼ Ajuste

O viés precisa de uma folga diferente — não necessariamente menor

O viés pode moldar-se de perto ao corpo, mas também alonga e estreita sob o próprio peso. A folga correta depende do tecido, do molde e da silhueta pretendida. Não parta do princípio de que uma peça em tecido plano cortada no viés deve ter folga zero ou negativa.

  • Use as medidas do corpo e da peça acabada indicadas no molde. Um molde desenvolvido para o viés deve ter em conta o cair e o movimento pretendidos.
  • Faça uma toile de comprimento total. Utilize um tecido com peso e cair semelhantes; uma amostra curta não mostra corretamente o efeito da gravidade.
  • Ajuste depois de a peça assentar. Avalie a peça no corpo depois de ter estado pendurada e faça os ajustes pelas linhas de costura marcadas, em vez de confiar em extremidades em bruto que possam estar deformadas.

Escolha o tecido de acordo com o seu nível de experiência

Boas opções para começar: cambraia fina de algodão, linho leve de tecelagem simples, challis de lã ou um crepe leve e estável com alguma aderência. Bonitos, mas mais exigentes: challis de viscose/rayon, crepe de chine de seda, charmeuse, cetim, cupro e tecidos de forro escorregadios. Normalmente inadequados: tecidos rígidos e pesados que não tenham bom cair. As malhas não têm viés verdadeiro no mesmo sentido de uma grelha de tecido plano; utilize-as apenas quando o molde contemplar explicitamente uma versão para tecido elástico.

Riscas e quadrados tornam-se diagonais e podem formar desenhos em espinha nas costuras equilibradas. Isso pode tornar-se o elemento central do design, mas exige tecido adicional e uma correspondência cuidada dos motivos.


▼ Quando algo corre mal

Cinco problemas a diagnosticar

O que está a acontecer Causas prováveis e solução
A peça roda à volta do corpo Os vieses dos painéis podem estar desequilibrados, o posicionamento no fio pode estar impreciso ou o próprio tecido pode ser fortemente desequilibrado. Volte a verificar o plano de corte antes de cortar; um erro importante na direção do fio é difícil de corrigir mais tarde.
A bainha fica irregular ou ondulada A peça pode precisar de mais tempo para assentar, ou a extremidade pode ter esticado durante a costura. Deixe-a assentar, volte a nivelar e teste um acabamento de bainha mais leve.
As costuras ficam onduladas Verifique o manuseamento, a pressão do calcador, a tensão do fio, o comprimento do ponto e a diferença de transporte entre as camadas. Teste toda a sequência de costura e passagem a ferro em retalhos antes de voltar a coser.
O decote cede ou abre Pode ter sido manuseado antes de receber a costura de estabilização ou pode precisar de um reforço adequado. Estabilize cedo e apoie a extremidade durante toda a confeção.
O ajuste muda depois de pendurar a peça O tecido alongou e estreitou. Faça o ajuste depois de a peça assentar, usando margens de costura generosas e as linhas de costura marcadas.

▼ Comece com um molde desenvolvido para o viés

Três moldes Aina para praticar a técnica

Um top curto cortado no viés é um primeiro projeto fácil de gerir porque há menos peso a puxar o tecido para baixo. Quando o corte e o manuseamento das costuras já forem familiares, um vestido comprido mostra toda a fluidez do viés.

Top Dalia drapeado e cortado no viés, em rosa vivoTOP DALIAUm top drapeado rápido, cortado no viés: muito fácil, cerca de 1 hora, XS–4XL.
Vestido midi Georgia cortado no viés, em cetim escuroVESTIDO GEORGIAUm vestido fluido cortado no viés, com opção de cintura elástica: fácil, 1–1,5 horas, XS–4XL.
Blusa Dea com decote drapeado e corte no viésBLUSA DEAUm top suave em viés com decote drapeado: nível principiante, cerca de 1 hora, XS–4XL.

Deixe o molde tratar da engenharia

Um plano de corte criado especificamente para o viés indica qual a direção de viés necessária para cada painel, onde estabilizar e quanto tecido prever. Siga-o antes de aplicar qualquer regra geral.

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